Factos, Testemunhos, Especulações, Raciocínios, Conclusões e muitas… muitas Questões
Introdução
Eu compreendo que a comunicação social não tenha de seguir um rigor científico nas notícias que transmite, mas não encontro uma explicação razoável para disparidades absurdas.
O jornalista heróico, o verdadeiro jornalismo de investigação, que, contra todos os poderes instalados, investigava arduamente e denunciava, segredos e factos de interesse público, tendo sempre como meta o rigor e a verdade, e que já foi o ídolo de uma geração … morreu.
Há muito que me apercebi de que a comunicação social não tem como missão informar imparcialmente e com precisão. Cada vez mais, apenas podemos contar com notícias que são manipuladas por omissão ou deturpação de modo a que se tornem sensacionalismo e que vendam. É a elegia à propagação do boato tosco, ao destilar de ressabiamentos pessoais e à defesa de interesses políticos e económicos inconfessáveis.
E é extraordinário, mas terríficamente assustador, o poder que a comunicação social detêm sobre a “construção” da opinião pública. Terrível, na medida em que a força dessa opinião pode levar às mais bárbaras, insanas e injustas atitudes.
E é dramático apercebermo-nos da selvajaria que grassa entre a opinião pública. Os portugueses idolatram o ódio de estimação. Odeiam e desejam o pior a tudo e todos.
Perante qualquer notícia negativa, por muito absurda que seja, não pensam, nem raciocinam. Desde que seja para destruir alguém, limitam-se a aceitá-la sem questionar, a torná-la sua verdade e repeti-la com uma convicção crescente. Dir-se-ia que é um extravasar de mágoas interiores acumuladas, uma espécie de vingança que se camufla numa pretensa sede de justiça. O grande problema é que, desde a primeira hora, ignoram a presunção de inocência; e, numa selvática sanha de irracionalidade, a condenação é garantida. Num estado sem lei, com gente desta, seriam linchamentos, atrás de linchamentos, até à extinção.
Dramaticamente, este tipo de atitude não é propriedade apenas dos iletrados e ignorantes, apresentando-se transversal a todos os níveis sociais, culturais e económicos.
A poluição jornalística dos últimos tempos sobre o caso do homicídio de Rosalina Ribeiro e a suspeita e posterior acusação de Duarte Lima como autor do crime, levou-me a elaborar um pequeno exercício de cruzamento de dados e raciocínio.
Quero deixar claro que, para mim, Domingos Duarte Lima é uma pessoa completamente indiferente, que nunca o conheci, nem a ninguém chegado a ele.
Não sei se é culpado ou inocente ou, mesmo, se terá alguma ligação directa aos envolvidos no homicídio. O que sei é que a acusação emanada pelas autoridades brasileiras me parece desesperadamente forçada e absurdamente idiota.
A minha motivação
No início, nem dei grande importância às notícias sobre o homicídio de Rosalina Ribeiro e apenas ouvia muito por alto o que se dizia sobre provas e investigações.
O interruptor que me desafiou a aprofundar este caso foi uma pseudo-notícia com as supostas provas “arrasadoras” e que ostentava o titulo “ Conheça as dez provas contra Duarte Lima”. O texto exibia, não dez, mas doze alegadas provas (ai, a matemática básica dos jornalistas). E apenas de passar os olhos no texto, diagonalmente, já saltavam à vista as incongruências e os absurdos.
( No decorrer deste exercício, essas “provas” não-provas são analisadas em As doze patéticas provas arrasadoras.)
Este exercíco à Sherlock Holmes levou mais de dois meses das minhas horas vagas e as únicas ferramentas utilizadas foram a Internet, o cérebro e o meu carro (para confirmar se, em plano, era possível reduzir de 92 km/h para 40 km/h em 150 m).
À falta de acesso ao processo, foram utilizadas todas as notícias publicadas e que faziam sentido; e as declarações de autoridades, testemunhas, advogados, pessoas ligadas à vítima e do próprio Duarte Lima.
Houve o cuidado de abranger o máximo possível de notícias, desde a época do crime, das mais diferentes fontes. Algumas versões dos acontecimentos foram desprezadas porque a mesma notícia apresentava versões significativamente diferentes, dependendo da fonte e mesmo cruzando os dados, as conclusões eram muito pouco sólidas. A maior importância e relevo foram dados às declarações na primeira pessoa, ouvidas directamente da boca dos seus autores através de reportagens na TV.
A principal dificuldade encontrada teve a ver com a falta de notícias puras que se dedicassem a passar as informações duma forma completamente imparcial, sem as direccionarem claramente para a condenação de Duarte Lima. Tristemente, de todos as notícias e opiniões que consultei, apenas um único jornalista, Hernâni Carvalho, se preocupou em cruzar dados e questionar contradições oficiais. Outras das dificuldades encontradas tem a ver com o irritante hábito de, nas reportagens, cortarem o som dos entrevistados e parte das declarações serem os próprios jornalistas a dá-las em discurso indirecto (as sabor das suas duvidosas interpretações pessoais).
Na impossibilidade de visitar os locais in vivo, condição essencial para se entender as provas e acusações, foi usado o Google Earth, cujas imagens datam de 1/12/2009 (uma semana antes do crime). Sempre que disponível, foi utilizado o Street View, sem o qual a pesquisa não teria atingido tanto pormenor, já que este permite visitar os locais em fotografia dinâmica e verificar exactamente, os radares, as estradas, os edifícios e as condições existentes.
O resultado é este apanhado de factos, testemunhos e argumentos que foram cruzados e interpretados de modo a terem um sentido lógico, razoável e muito possível.
O depoimento de Domingos Duarte Lima
As doze patéticas provas arrasadoras
A curiosa cidadania dos portugueses
Factos e Testemunhos pouco claros
![rosalina-ribeiro_cej[8]](http://ocasoderosalina.files.wordpress.com/2011/12/rosalina-ribeiro_cej8.jpg?w=411&h=520)
